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Com quantos livros se faz um jogador de futebol?

23 de setembro de 2026 · Lucas Broges


Em um meio onde o repertório cultural do jogador médio flutua entre a espessura de uma unha e a profundidade de um pires, raros suspiros de erudição como o de Gustavo Scarpa, jogador do Clube Atlético Mineiro, reverberam nas redes sociais como se houvessem encontrado o novo Machado de Assis boleiro.

Infelizmente casos como esses são a exceção no meio futebolístico e na sociedade como um todo. Esse meio, que já teve figuras como Sócrates e Tostão, hoje vive de uma escassez intelectual, tendo um respiro apenas em figuras como o próprio Scarpa ou Danilo, defensor do Flamengo e da seleção.


É curioso pensar que o jogador de nível nacional mais mal pago possui plenas condições de se dedicar a uma simples rotina de leitura, mas escolhe, em 99% dos casos, atividades como traição recreativa ou "rolês" caros como uma maneira de aproveitar seu tempo livre. Claro que isso é reflexo de um problema estrutural muito maior. Entretanto, não devemos justificar ações individuais apenas alegando um problema maior, afinal, todos somos responsáveis por nossas escolhas.


Muitas vezes, devido aos salários elevados, tanto o público geral quanto os próprios jogadores esquecem que até os mais bem pagos do mundo seguem sendo trabalhadores, submetidos à subordinação como qualquer outro. Vendem sua força de trabalho, têm carreiras curtas e dependem de clubes ou patrocinadores.
Em Futebol à Esquerda, Quique Peinado reúne histórias de atletas que entenderam essa posição e agiram com base nela. No Brasil, Afonsinho enfrentou a Lei do Passe. Doutor Sócrates, por sua vez, ajudou na construção da Democracia Corinthiana em plena ditadura. São figuras que, conscientes de seu papel, lutaram por espaços que dificilmente seriam conquistados por pessoas comuns.


Hoje, esse tipo de consciência é raro. Obviamente não estou contando que alguém como o Neymar escolha por livre e espontânea vontade leituras como "Ser e Tempo" ou "A Transcendência do Ego", até porque, sem uma base teórica adequada, essas leituras dificilmente trazem um ganho de percepção imediato. Porém leituras como a própria "A Morte de Ivan Ilitch", que o Scarpa resenhou em sua publicação mais famosa, são, de maneira geral, bem acessíveis e trazem uma mensagem clara e muito relevante para qualquer pessoa.

"…era o mesmo que se vê em todas as pessoas não exatamente ricas, mas que querem parecer ricas, e por isso só conseguem parecer umas com as outras." — Liev Tolstói, A Morte de Ivan Ilitch

Tolstói escreveu sobre a burocracia russa do século XIX, mas poderia estar descrevendo qualquer CT do futebol profissional. Assim como Ivan Ilitch, o jogador médio segue o roteiro do que "alguém que venceu" deve ter, e mede o próprio sucesso pelo que consegue exibir. Infelizmente, nesse esperneio para parecer rico, poucos compreendem o poder que já têm nas mãos.
Um único vídeo de dez minutos foi suficiente para levar uma novela russa ao topo dos mais vendidos da Amazon no Brasil. O mesmo vídeo inspirou um clube de leitura com cerca de 500 torcedores e fez colegas de elenco aparecerem lendo no intervalo do treino. Se alguém com o alcance do Scarpa conseguiu isso, mal posso imaginar o que seria possível caso jogadores com milhões de seguidores usassem esse alcance para algo além de anunciar a XoxotaBet.


A maior parte dos jogadores vem de famílias pobres e, em poucos anos, passa a ganhar mais em um mês do que os pais ganharam na vida inteira. Esse enriquecimento repentino não se reflete direamente em outros campos da vida. E como nunca aprenderam de outra forma, a ostentação se torna a maneira pela qual validam sua "vitória" para si e para os outros. Os bens de consumo se tornam seu troféu mais importante. Uma vez conquistado esse troféu, não resta mais nada pelo que lutar.


Contudo, nada disso deveria ser justificativa para um comportamento infantilizado em indivíduos adultos com tanto poder de influência. Precisamos passar a responsabilizar mais os jogadores por seu posicionamento, atitudes e decisões. É necessário cobrar mais maturidade e sabedoria de figuras públicas, pois acredito ser uma das principais formas de realizar uma revolução nos hábitos e atitudes do povo. Infelizmente, as pessoas tendem a replicar o comportamento alheio quando lhes falta conteúdo para compor quem são.


Por fim, o Scarpa, através de uma simples postagem, influenciou milhares de pessoas a praticarem um hábito tão simples, mas que expande a percepção sobre o mundo e sobre si próprio. Torço para que situações como essa se tornem cotidianas ao ponto de nem serem mais necessárias ou relevantes. Anseio por um país em que pelo menos a maioria das pessoas sejam autoconscientes da sua existência.

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// comentários (1)

  • ruanSignori · 23 de setembro de 2026

    A respeito de responsabilizar jogadores sobre seus posicionamentos e decisões, vale reconhecer casos como o do Mbappe se recusando a jogar pela seleção francesa caso o patrocínio "master" fosse de casas de apostas. Jogador este que está facilmente entre os 5 jogadores de futebol mais influentes da atualidade.

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